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domingo, 31 de julho de 2011

[Reportagem] Editora Chifre - Festa de Apresentação - 22 de Julho - Musicbox


É seguro referir que é único e incrível aquilo que está acontecer à música portuguesa e, acima de tudo, à música portuguesa cantada em português, nestes tempos que são os de hoje. Depois do abanão protagonizado pela FlorCaveira de B Fachada, João Coração, Tiago Guillul e Samuel Úria, parece que perdemos definitivamente a vergonha. E toda a gente quer fazer um bocadinho para participar e celebrar isto que é a música portuguesa cantada em português. Para todos os efeitos haverá sempre um antes e um depois da FlorCaveira – e isso, por mais que se odeie B Fachada ou outro qualquer cantautor da editora da capital, é inegável.

Todo um primeiro parágrafo para introduzir a Chifre que, aponte-se para mais tarde recordar, apresentou-se pela primeira vez, enquanto editora, no dia 22 de Julho, no Musicbox, com os artistas que preenchem, para já, o seu catálogo: Diego Armés, David Pires, Capitão Fausto e A Armada – tocaram nesta ordem, uma “noite em crescendo” como referiu, a certa altura um dos elementos dos Capitão Fausto. Em crescendo, sim, mas não nos referimos à qualidade, e sim a um progressivo endurecimento do som.

Primeiro Diego Armés, ele que é vocalista dos Feromona, mas que aqui se apresenta a solo, apenas na companhia de uma guitarra eléctrica. “Estou um pouco nervoso. Costumo tocar com outras pessoas e a maior parte de vocês não me está a ligar nenhuma”, desabafa com razão. Mas lá em baixo, no meio do público, estão alguns atentos, afectos à recém-nascida Chifre que não deixam Diego cair. De aspecto frágil e de baixa estatura, Diego chega a lembrar Cão da Morte, ou seja, Luís Gravito, na forma pouco fluente e estruturada como lidam com o público. Não é necessariamente mau – confere-lhes alguma piada. A música de Diego Armés faz lembrar os Feromona, mas sem secção rítmica – talvez porque associamos tão facilmente a voz do músico à sua banda.

Já David Pires faz-se acompanhar de uma banda – um guitarrista, um teclista (o dos Capitão Fausto), um baixista e um baterista. Ele, David Pires, baterista d’Os Pontos Negros e da Armada ocupa-se da guitarra acústica. Sentimos algumas harmonias em ascensão que aspiram aos céus e que nos lembram os Fleet Foxes. É folk ambiciosa e atenta ao pormenor, é rock celeste, mas não agreste. David Pires mostrou qualquer coisa, mas não mostrou tudo o que a sua conta no Myspace mostra que pode fazer. Ouvimo-lo na Internet e sentimo-nos inspirados, ouvimo-lo no Musicbox, na Festa de Apresentação da Chifre, e não nos sentimos mais que confortáveis. O melhor ainda está para vir, portanto.

Os Capitão Fausto cometeram a proeza de, finalmente, chamar a atenção de um público que parecia mais interessado em teorizar a história do que em fazê-la. Os Capitão Fausto são aquilo que os Iconoclasts queriam ser. São miúdos entusiasmados por estar em cima de um palco, mas que não querem imitar uma infinidade de outras bandas que estão na berra - ou, pelo menos, não são tão descarados. Os Capitão Fausto não se afastam dessa infinidade de outras bandas de origem anglo-saxónica que estão na berra, destacam-se porque são bons. Não são absurdamente bons, mas são bons. Há “na na na na na’s”, há “la la la la la’s”, há toda uma aura juvenil/infantil que envolve a banda e nos entusiasma sem que haja uma razão aparente senão a vontade de celebrar qualquer coisa, o momento.

A fechar a noite, uma Armada que conta com Pedro da Rosa (Os Golpes) e David Pires (ele, outra vez) como elementos mais mediáticos. “Nós somos A Armada e fazemos rock n’ roll”, anuncia Pedro da Rosa. O que se segue são riffs que podiam ter saído da guitarra de Angus Young, canções que vão dos Stones aos Clash passando pelo punk nacional e algumas expressões que denunciam esta geração que viveu a década de 90, a do grunge e do nu-metal (riscar este último). A banda refere-se ao público da frente, o do mosh, como sendo a “malta do hardcore”. A certa altura, Pedro da Rosa lança-se num salto suicida para o público num incrível stage diving – a calma que transparece n’Os Golpes ficou, definitivamente, lá fora.

A festa haveria de acabar com alguns elementos do Capitão Fausto em cima do palco, uma foto de família com o símbolo da Chifre, o \m/.

A ideia de estarmos perante uma editora que parte das sobras de outras duas desvanece-se rapidamente. Para já, a Chifre parece ser o elo mais fraco (ou menos forte) de uma trindade composta pela própria, pela FlorCaveira e pela Amor Fúria. Há uma imagem de família que já associávamos às outras duas e privilegia-se também a música cantada em português. Não sabemos o que nos dará o futuro, mas uma coisa já perdemos: a vergonha.

Texto originalmente publicado em www.ruadebaixo.com

terça-feira, 28 de junho de 2011

[Reportagem] Ryan Adams - 16 de Junho - Aula Magna

Primeiro M. Ward, depois Sufjan Stevens e agora Ryan Adams. Os últimos meses foram generosos para fãs do country e da folk do início da última década. O único que terá mudado radicalmente - a um nível meramente musical - é Sufjan Stevens que também terá sido responsável pelo melhor dos três espectáculos.

O de Ryan Adams, no passado dia 16 de Junho, decorreu aos soluços - um ataque de soluços terá sido uma das poucas coisas que não lhe aconteceram durante o concerto -, o músico é distraído, trapalhão e desajeitado. Antes do espectáculo, para além dos folhetos distribuídos à entrada, ouvimos a mensagem em português e em inglês, a mensagem que apelava ao não uso o telemóvel durante o espectáculo. Mais: Ryan Adams, conhecido por um certo mau feitio que acabou por não se confirmar, recusou ser fotografado.

Com o espectáculo a meio chegou a desabafar: “não acredito que isto possa piorar”. Não estava a exagerar. Logo na primeira canção, a harmónica pregou-lhe umas quantas partidas. Ryan não foi meigo: bateu-lhe e gritou-lhe: “acorda!”. Curiosamente, a sua relação com a harmónica melhorou substancialmente até ao fim. Depois vem o humor (muitas vezes auto-depreciativo). No intervalo de duas canções, atira: “A actuação do Jesse Malin [o músico que assegurou a primeira parte] é como uma festa no quintal, a minha é como uma ida ao dentista”. Numa altura em que fazia algumas mudanças no palco: “Gostava de poder chamar um técnico de som, mas eu sou o técnico de som”.

Num concerto acústico e intimista, Ryan Adams, sozinho em palco, passeou-se pela sua discografia (já la vai uma década) que tem tanto de Bob Dylan como de Bruce Springsteen, fez uma versão de uma canção dos Cowboy Junkies e apresentou uma ou outra nova canção. Podemos não ter tanta fé no autor de “Gold” como tínhamos em 2001, mas Ryan não tem uma canção que justifique o seu desaparecimento – sim, chegou a ser equacionado.

Com a única guitarra que traz para a digressão, a guitarra com a qual escreveu quase todas as suas canções e que um dia será, com toda a certeza, vendida no eBay a peso de ouro, Ryan Adams deu um belo espectáculo, desligado da corrente, sem telemóveis, sem iPads e, mais importante, sem palavras em português. Os “Obrigados” foram “Thank yous” - até porque não é necessário converter uma plateia que já está convertida.

Publicado originalmente em Ruadebaixo.com

sábado, 25 de junho de 2011

[Reportagem] Pop Dell'Arte - 9 de Junho - Musicbox


Em 1987 ainda não tinha caído o muro, nem a União Soviética. Em 87 não tínhamos assistido à Guerra do Golfo e, claro, os 11 de Setembro e de Março não eram mais que os dias em que se celebrava, por exemplo, o Dia Mundial do Rim. Em 87, em Dezembro de 1987 foi editado “Freepop”, álbum de estreia dos Pop Dell’Arte e um dos mais importantes documentos da história da música portuguesa. Naquela altura ninguém soava como os Pop Dell’Arte, tal como hoje ninguém soa da forma como eles soaram na altura. Na ressaca pós-punk que rendeu nomes como os Heróis do Mar, os Mler Ife Dada ou os GNR, os Pop Dell’Arte destacavam-se de outrem - o som não respondia a convencionalismos e João Peste parecia mais um louco do que um cantor. O que separou a crítica na altura em que a banda de Peste explodiu é o que a une hoje, no ano da graça de 2011 - o som único, longe de tudo o que se fazia na altura.

É interessante verificar que alguns dos mais importantes discos dos finais das décadas de 80 e início de 90 vão hoje sendo recriados ao vivo - é assim com “Screamadelica” dos Primal Scream – vamos poder ver tudo em Algés -, é assim com “Doolitle” dos Pixies e é assim, agora, com os Pop Dell’Arte. A diferença estará no facto de os portugueses não darem azo a regressões. Celebrou-se o passado por uma noite.

Nesta oportunidade única que rendeu uma óptima casa ao Musicbox, em Lisboa, a banda sobe a palco com mais de uma hora de atraso. Já com toda a banda em palco, João Peste surge, de camisa e gravata vermelha, desajeitado, mas só até surgirem as primeiras palavras de «Berlioz» - aí, nessa altura, fecha os olhos, abre os braços e balança-se, é assim todo um espectáculo, umas vezes de pé, outras sentado. “Freepop” é tocado na íntegra – e é tudo o que o título nos faz crer que é, é pop livre, poliglota, estragada, longe de tudo o mais. Seria hoje um OVNI, tal como foi em 87.

O público, mais velho que o habitual, aproveita para matar saudades - no meio da plateia, já depois da apresentação integral de “Freepop”, alguém que só podia estar bastante alcoolizado insiste, “toca New Order, a «Bizarre Love Triangle». A verdade é que por mais que o Musicbox se assemelhe por uma só noite ao Hacienda, o clube de Manchester que nos anos 80 reunia a melhor música, as melhores bandas e a melhor droga da cidade, os Pop Dell’Arte não entram em facilitismos.

Já no encore final, em «My Funny Ana Lana», João Peste deixa, sem querer, que o microfone se desligue. Nesta altura, um indivíduo, talvez um amigo, talvez um fã, também com bastante álcool no sangue, sobe ao palco, abraça Peste e mantém-se em palco a dançar aquele que, porventura, foi o maior sucesso dos Pop Dell’Arte até hoje. Peste, tal como a banda, reagem como se nada fosse e saem progressivamente do palco - primeiro o “invasor” com a ajuda de um segurança, depois o líder da banda e por aí fora. Histórico.

Publicado originalmente em Ruadebaixo.com

sábado, 18 de junho de 2011

[Reportagem] The Parkinsons - 4 de Junho - Caixa Operária

Pouco interessará se a música é tão só a soma de três acordes dispostos de variadas formas. De nada interessará o facto de os Sex Pistols já terem “inventado” isto há mais de três décadas. Pouco interessará verificar que a Caixa Económica Operária está a meia casa para receber uma das mais entusiasmantes bandas do final da década de 1990 e início da que se lhe seguiu, a dos zeros. Interessará pouco que John Peel, porventura, o mais influente radialista de todos os tempos, tenha considerado os Parkinsons uma das mais entusiasmantes bandas do seu tempo e que estes tenham aberto espectáculos para gente como os Fall ou os Jon Spencer Blues Explosion.

Interessa antes perceber que os Parkinsons voltaram a subir a um palco, interessa perceber que Afonso Pinto voltou a ser banhado em cerveja, a fazer a espargata, a incitar a plateia e a ser levado em ombros. Interessa perceber que voltámos a presenciar o caos num concerto dos Parkinsons. As canções a sucederem-se umas atrás das outras sem tempo para descansar ou respirar. Algum mosh, algum crowd-surf, várias invasões de palco. Afonso Pinto e Vítor Torpedo a provocarem a plateia. O prefixo “feios, porcos e maus” assenta melhor aos Mata Ratos – donos e senhores de uma primeira parte em que estiveram iguais a si próprios -, mas também acaba por se associar facilmente a esta malta que tem nome de doença crónica e que ajudou a construir uma cena, a de Coimbra, que ainda hoje é recordada com saudade e nostalgia – passe a redundância.

No final, apenas uma questão nos aflige: Fará isto algum sentido hoje, num tempo que parece já não ser o deles? Os saudosistas dirão que sim. Outros irão torcer o nariz. À entrada ouvimos alguém dizer, enquanto tentava comprar bilhete: “Não me lixem, eu quero ver Parkinsons, quero um bilhete”. Antes do encore ouvimos: “Vocês já foram bons”. A escolha é sua.

Artigo publicado originalmente em www.ruadebaixo.com

quarta-feira, 8 de junho de 2011

[Reportagem] Twin Shadow - 25 de Maio - Lux

Relativamente ao concerto de Twin Shadow no Lux, no passado dia 25 de Maio, tínhamos uma certeza – o som estaria melhor do que da última vez que lá tínhamos estado. A última visita ao Lux fora no dia 19 de Abril, dia de concerto de Best Coast. Concerto péssimo por várias razões, mas, resumindo muito bem a coisa, o som estava péssimo e, ao vivo, Beth Cosentino não canta um chavo.

Adiante. Twin Shadow é George Lewis Jr., um tipo que podia muito bem ser um actor de Bollywood mais charmoso que o normal. E é nesta altura, numa altura em que os Gayngs repescam clássicos mais ou menos pirosos, one hit wonders avulsos e fazem-se de pomposos românticos que recebemos um Twin Shadow que se atira de cabeça aos sons do passado, um passado em que conseguimos filtrar influências dos Smiths, Queen e David Bowie.

O disco, “Tyrant Destroyed”, foi criado durante o refúgio em Brooklyn (mais um). Antes, Shadow havia passado pela Suécia e é com admiração que lhe vemos sair, a meio do concerto algo como: “Não percebo porque é que os americanos vão todos para países como a Suécia e a Dinamarca. Portugal é bem melhor”. Caro George Lewis, os americanos nem sabem que existimos – para os mais letrados somos uma província espanhola. Agora estamos nas bocas do mundo pelas piores razões – infelizmente, talvez nos conheçam melhor agora.

“Tyrand Destroyed” foi tocado de uma ponta à outra – «Castles in the Snow» duas vezes, uma a meio, outra a fechar, mas não há material para encores. O espectáculo escapa-nos sem grandes problemas, mas também sem grandes sobressaltos. Percebe-se o burburinho, mas, ao vivo, falta qualquer coisa que nos faça chegar à conclusão que a quantidade de concertos do homem marcada para os próximos meses seja justificada. Em sala foi suficiente, mas como será em festival?

Texto publicado originalmente em www.ruadebaixo.com

quarta-feira, 1 de junho de 2011

[Reportagem] The National - 24 de Maio - Campo Pequeno

O concerto no Campo Pequeno, em Lisboa, foi, depois do belo concerto no Super Bock Super Rock, a consagração nacional dos The National – acreditamos que esta ideia também se aplique à data do Porto. Sala completa – havia apenas meia dúzia de cadeiras disponíveis, naqueles lugares que não interessam -, o público ideal e a ressaca do segundo disco perfeito consecutivo. Os National são um fenómeno, mas, ao contrário do que muitos possam pensar, não um fenómeno exclusivamente português – é um fenómeno global. Passar de banda de culto, capaz de esgotar a Aula Magna, a banda de salas como o Campo Pequeno ou um Coliseu foi uma questão de cinco álbuns de estúdio.

Começaram com a perfeita «Start a War», uma das melhores canções de Matt Berninger e companhia. Um arranque suave, a testar um público devoto, ávido pelas canções belas, perfeitas e que até hoje acreditávamos que perdiam um “qualquer coisa” - que mal sabíamos explicar – ao vivo.

As premissas de grande parte das canções dos National são simples: a canção começa lenta para ir subindo de intensidade até atingir um clímax – guitarras épicas que aspiram o céu, uma secção de sopros incessante e um Matt Berninger que ora é um animal domesticado ora se torna num selvagem, principalmente nas canções dos álbuns pré-“Boxer”. Isto poderia ser a fórmula secreta para qualquer banda conquistar o apreço da crítica. Não o é pela simples razão de que cada banda/artista faz destas premissas aquilo que quer/pode. É quase como uma aula de Matemática na escola primária – nas contas safam-se os mais espertos. Os National sabem que dois mais dois são quatro e que esse número ao quadrado é 16. Tão simples quanto isto – são bons, são os melhores da turma. Mas se a coisa em disco resultava, ao vivo continuava a faltar qualquer coisa, voltamos a teimar.

Então, o que raio tornou este concerto tão diferente de tantos outros que os National foram dando, ao longo dos últimos anos, em Portugal?

São várias as razões. Um: O concerto foi em nome próprio, o que só não coloca de parte os concertos na Aula Magna e de Guimarães – curiosamente, dizem muitos, os dois melhores concertos antes desta dose dupla de Maio de 2011; Dois: Os National cresceram e com isso o espectáculo melhorou. O pano gigante, no qual são projectadas imagens da actuação, é uma magnífica adição ao concerto; Três: Matt Berninger, o desajeitado vocalista da banda de Ohio, está mais intenso do que nunca, como ficou comprovado nos incentivos no momento mais especial da noite, «Vanderlyle Crybaby Geeks» – já lá vamos.

Arriscamos isto – à excepção do concerto dos Arcade Fire na Meca do indie que é o Super Bock Super Rock, não vamos ter este ano outro concerto em que se sinta uma tão grande partilha entre público e banda. Começámos, já referimos, com «Start a War», espécie de aquecimento, para o que se seguiu. Seguimos por ali fora com «Anyone’s Ghost», «Secret Meeting» e «Bloodbuzz Ohio» – esta última a tornar o Campo Pequeno, pela primeira vez, numa só voz. Em «Squalor Victoria», Berninger dá os primeiros sinais de loucura mediada, que viria a confirmar, como é costume, em «Abel» e «Mr November» – nesta última não nos “braços de chefes de claque”, mas de fãs – todos eles número um, porque com os National a devoção é total. O melhor, claro, ficou guardado para o fim. Primeiro, antes do encore, «Fake Empire» – os gémeos Dessner nos (belos) coros, o baterista Bryan Devendorf – um dos melhores da sua geração - em alegre cavalgada, Berninger ao volante e o público ora deixando-se levar ora tentando-se sobrepor à voz da banda.

Dava para ainda tirar outro coelho da cartola? Dava, deu – os cinco desligam a amplificação e avançam para mais perto do público. Seguiu-se uma versão acústica de «Vanderlyle Crybaby Geeks», um momento mágico e todo ele de partilha entre banda e fãs – duvidem se o fã mais durão vos disser que não deixou verter uma única lágrima durante estes inesquecíveis três/quatro minutos. O concerto dos National foi mágico, no limite do absurdo, insuperável. Próximo passo: ser cabeça-de-cartaz de um festival português, aquele que fica a Sudoeste – sim, já ultrapassaram os Interpol.

Artigo originalmente publicado em www.ruadebaixo.com

[Reportagem] CCBeat - Diabo na Cruz + Linda Martini - 18 de Maio - Centro Cultural de Belém

Calhou em sorte que no dia em que um tal de Harold Camping, engenheiro civil reformado de 89 anos, previu o fim do mundo (21 de Maio de 2011) - pela segunda vez na sua carreira como anunciante de “não acontecimentos” –, o rock português desse mostras de uma inegável vitalidade num bem composto Centro Cultural de Belém. Diabo na Cruz e Linda Martini, isto é, o presente do rock, isto é, as duas melhores bandas rock da actualidade, a par d’Os Golpes.

Primeiro o grupo de Jorge Cruz, João Gil, B Fachada, Bernardo Barata e João Pinheiro – agora também com Manuel Pinheiro na percussão. Os Diabo na Cruz são mais banda do que da última vez que os vimos. No Sudoeste, edição de 2010, quase montaram um arraial no palco secundário do festival da Zambujeira do Mar. A festa foi tal que, a certa altura, acreditámos que seria concerto para palco principal.

Sem grandes paragens (contámos uma, nessa altura o palco estava um caos), as canções do prometedor disco de estreia sucedem-se, alternando com as novas – todas óptimas. Os teclados marados e as guitarras ressuscitadas pelas bandas new-wave/pós-punk surgidas ao longo da última década de «Ai é Tão Lindo», a festa de bairro suburbano que é «Bom Tempo» – há muito tempo que não se via bom tempo ou há muito tempo que não se via tanta boa banda nacional a cantar em português e a fazê-lo com excelência -, e a canção da mulher moderna que é «D. Ligeirinha».

“Perdemos o jeito para tocar para gente tão sóbria”, desabafa Jorge Cruz, numa clara alusão às Queimas das Fitas. Apetece dizer: Entre uma Queima das Fitas e um bailarico de Verão no Portugal profundo, venha o Diabo e escolha. Vale aos Diabo na Cruz o facto de não se terem agarrado ao passado, algo que lhes confere a habilidade para tocar em qualquer sala de espectáculo e, principalmente, tocar para um público jovem que só agora, passados vários anos, descobre a tradição e, mais surpreendente ainda, estima-a. Porque os Diabo na Cruz podiam ser os Bloc Party cá do burgo. Ou melhor: os Diabo na Cruz poderiam ser os nossos Franz Ferdinand. Não são. São uma outra coisa, são a mais estimulante proposta no que diz respeito a “Roque Popular Português” surgida nos últimos muitos anos. Concerto curto, mas soberbo.

Difícil a tarefa dos Linda Martini - suceder ao concerto frenético dos autores de «Corridinho de Verão». Mas, enquanto a banda de Jorge Cruz e companhia apela a um imediatismo irresistível, os Linda Martini aspiram a proporcionar uma experiência bem mais sensorial com o seu público. Daí que a reacção seja menos eufórica ou efusiva, mas mais emotiva.

Ao contrário de “Olhos do Mongol”, “Casa Ocupada”, o mais recente disco da banda lisboeta, vai directo ao assunto. As canções são mais curtas, mais cantadas e menos dadas a divagações instrumentais. Liricamente, o segundo disco, continua a mostrar uns Linda Martini certeiros e perspicazes. Em «Nós os Outros», por exemplo, é, na sua ambiguidade, quase pornográfica: “Espero-te chegar / se me vier / Espero-te chegar…”. E, contra todas as expectativas, quão bem soa isto?

Todo este parágrafo anterior, porque os Linda Martini dedicaram os primeiros 15 a 20 minutos da actuação às canções do álbum de 2010, o mais recente. Depois vieram os (já) clássicos, «Dá-me a Tua Melhor Faca», «Amor Combate» ou «Quarto 210». Nestes temas, os Linda Martini aproximam-se mais do pós-rock e do rock progressivo.

“A que se segue não é uma tradução, é mesmo português, chama-se «Juventude Sónica»” - Isto são os Linda Martini a introduzirem uma canção, isto não é mais que os Linda Martini a rechaçar os rótulos colocados pela imprensa nacional e, em último caso, são os Linda Martini a atirarem a toalha ao chão e a concederem um: “Tomem lá a bicicleta”. Fica a dúvida: Honestidade ou pura provocação?

“Não temos muito jeito para encores. Estas duas eram para ser encore, vamos fingir que saímos e voltámos estilo Ninja”. Mais duas canções: «Lição de Voo Nº1», do primeiro disco, e «100 Metros Sereia», de “Casa Ocupada”. Nesta última, Hélio Morais convida a uma invasão pacífica de palco. No início há mosh e até paira uma ideia de descontrolo, mas, pouco depois, os miúdos parecem cordeirinhos, todos alinhados e a cantar repetidamente “Foder é perto de te amar, se eu não ficar perto”. E há lá coisa mais tocante?

Artigo originalmente publicado em www.ruadebaixo.com

sexta-feira, 27 de maio de 2011

[Reportagem] Glasser + Drawlings - 21 de Maio - Musicbox


Sexta-feira, 20 de Maio, de mulheres num Musicbox bem composto. O interesse recaia quase todo em Glasser, mas havia alguma curiosidade em ver como Drawlings aka Abby Portner, irmã de David Portner, ele dos essenciais Animal Collective, se “safaria” a solo.

Uma conversa paralela entre dois jovens: “Sabes quem é? É a irmã do [David Portner dos] Animal Collective”, ouvimos. Resposta: “Ah, então é por isso que ela é assim!”. E o que é isso de ser “assim”? É Drawlings a desenhar paisagens através de sons samplados que tanto podem ser os de um cavalo excitado como os sons de caixinha de música. O timbre da sua voz chega a lembrar Bjork, mas o tom é onírico e os efeitos utilizados são múltiplos. Cumpriu naquilo que era a sua função – abrir para Glasser (que também estava no meio do público).

Glasser é personagem misteriosa. O cabelo loiro (ou será ruivo?) e a pele excessivamente branca parecem denunciar ascendência nórdica. O concerto começa com «Apply», uma das canções mais fortes do disco. A norte-americana mexe-se de forma característica. Passados dois minutos, a canção sobe de intensidade, ele, o tipo que a acompanha ao vivo, o homem das máquinas, atira-se furiosamente à percussão e pensamos, “Muito bem, isto promete. Ainda agora começámos e já estamos assim?”. Tememos pelo espectáculo. Aguentar-se-á?

A música estabelece alguns paralelismos com as novas rainhas do gótico, Zola Jesus e, sobretudo, Fever Ray. Mas Glasser é uma outra coisa. A autora de “Ring” mantém o negrume e harmonias vocais dos seus pares, mas adiciona-lhes fortes influências orientais, o que lhe confere um som novo e genuíno. Ao vivo, ela é a voz – ele, o tipo que a acompanha, está encarregue de todo o resto. Há beats dançáveis, uma voz carregada de reverb e uma música que em disco soa bem e ao vivo ainda melhor.

Após uma intensa hora de espectáculo, o duo sai da sala. Espera-se um encore, mas Glasser volta sem companhia. “Já tocámos o disco todo, mas querem mais uma?”. Perante o “sim” da audiência, a artista desabafa: “esta é uma canção tradicional inglesa”. Cantou-a a capella e, numa única canção, demonstrou toda a flexibilidade da sua voz que chegámos a colocar em causa, a meio do espectáculo. O espectáculo? Aguentou-se, pois.

Artigo originalmente publicado em www.ruadebaixo.com

domingo, 22 de maio de 2011

[Reportagem] Cass McCombs - 20 de Maio - Musicbox


Há poucas semanas, a Galeria Zé dos Bois (ZdB) denunciou, em comunicado no Ípsilon, o suplemento cultural do jornal Público, que “ainda não recebeu uma única parcela do montante que lhe foi adjudicado para o presente ano, tendo sido obrigada a recorrer ao crédito e a prescindir de colaboradores essenciais”. É de louvar que a programação da ZdB, independentemente de todos os problemas por que instituição passa, devido aos cortes de apoio do estado, continue a ser tão interessante quanto ambiciosa. A ver vamos o que se segue nos próximos meses, sabendo que a situação não é fácil.

Desta feita, o concerto de Cass Mccombs do passado dia 19 de Maio dificilmente poderia ter corrido melhor, do ponto de vista do retorno financeiro: esgotado.

Acompanhado de uma banda – que revela um baixista que poderia ser um membro perdido dos ZZ Top - Cass Mccombs, personagem cativante e misteriosa, entra de boné e cabelo apanhado para começar com a fabulosa canção de abertura de “Wit’s End”, «County Line», canção em que discorre sobre o mais antigo dos temas, a dor de corno. As canções do mais recente disco, esse “Wit’s End”, o álbum que vem à ZdB apresentar, são canções longas, com mais de cinco minutos, mas são canções acessíveis e fáceis de adorar.
John Peel dizia que Mccombs era “discretamente brilhante”. Temos que concordar, o músico californiano não deixa que se saiba muito sobre si e raramente dá entrevistas. É um tipo recatado, mas afável. Nas horas livres é, como referiu John Peel, brilhante. “Maybe I’m Wrong / Maybe I’m Working for the Day”, desabafa na fantástica «Burried Alive» – e assim Mccombs resume toda a sua existência de forma subtil.

As canções são quase todas downtempo e descrevem ambientes melancólicos. No momento mais singular do espectáculo, as guitarras distorcem e somos presenteados com um grande riff que as Dum Dum Girls não recusariam. É rock n’ roll, mas não muito, que este tipo que, fala pela banda que o acompanha, não ingere álcool e (desconfiamos) renega as drogas.

Naquele que foi o maior problema da noite na ZdB, o calor, o norte-americano teve o condão de transformá-lo num momento mágico. Ao longo da actuação foi-se queixando do “muito calor”, pediu o “ar condicionado”, apelou à abertura das janelas e, por fim, já na última canção, em desespero, pediu que desligassem as luzes. “Desliguem tudo, temos as luzes de lá de fora”. E assim foi, um momento mágico que muitos recordarão por muito e muitos anos.

Texto publicado originalmente em www.ruadebaixo.com

segunda-feira, 16 de maio de 2011

[Reportagem] Norberto Lobo - 11 de Abril - Teatro da Trindade

Norberto Lobo parece ser daquele tipo de artista que é, na banalidade do dia-a-dia, um indivíduo tímido e desajeitado. Duvidamos do seu jeito para as miúdas – seja lá o que isso for de ter jeito para as miúdas. Norberto Lobo, ele que já vai no terceiro disco a solo, “Fala Mansa”, descobriu que tem um dom e potenciou-o. Num país que, confirma-se agora, está em recessão económica e em que se discute a sobrelotação de malta com habilitações literárias, Norberto Lobo descobriu o que o distinguia e rendeu-se à evidência: Nem todos podemos ser Políticos ou Engenheiros e, Deus nos livre, Lobo não se tornou nem numa coisa nem noutra. Evitou-se mais um Lobo Mau, ganhou-se um Lobo Bom.

O concerto que deu no Teatro da Trindade, o de apresentação de “Fala Mansa” no passado dia 11 de Maio, é o mais intimista possível. Ao fim da primeira canção ouvimos um sincero “Lindo”. Vem da cadeira ao lado, alguém convertido àquele contínuo dedilhar, aquele mestre explorador tantas vezes comparado a Carlos Paredes e a Jim O’Rourke que é Norberto Lobo.

A dificuldade de Norberto Lobo e deste tipo de espectáculo está em manter o mesmo nível de atenção do público, ao longo da totalidade do concerto. Lembramo-nos, por exemplo, da falta de paciência que temos para um Joe Satriani ao vivo. Daí que, a meio do espectáculo, Lobo explore territórios mais dignos dos Tigrala, projecto paralelo partilhado com Guilherme Canhão e Ian Carlo Mendoza.

Tanto virtuosismo poderia afastar Norberto Lobo das melodias. Não é o que acontece. Como em «Mudar de Bina» e «Pata Lenta», as melodias continuam a ser pormenor importante na equação. Tanto dedilhar cheio de virtude poderia também condenar aqueles silêncios a um momento castrador e de um vazio irrespirável. Pelo contrário, os silêncios servem para respirar, porque Lobo sabe dosear esse sobe e desce de tensão e intensidade que caracterizam os seus espectáculos. Nos momentos mais intensos parece que, exageremos, estamos perante uma orquestra. A guitarra – ao todo, seriam duas clássicas e um outro instrumento de cordas que parece e soa como um banjo - é só uma, mas parece duas ou três. A certa altura dá uso ao bottleneck numa guitarra personalizada e cheia de idiossincrasias. Cada vez que o mestre do fingerpicking termina uma canção, cada uma delas uma peça fundamental, uma contribuição fulcral para o legado da música portuguesa, ouvem-se aplausos, longos, de vários segundos, um irrefutável sinal de reverência. “Obrigado por terem vindo e não terem ido ver os Tindersticks”, diz ele. “Tu és melhor”, diz um fã. Resposta à altura.

Não nos deixemos enganar por este nome, este nome de protagonista de anúncios de marca de champôs. No nosso gabinete ou no Teatro da Trindade, Norberto Lobo é sempre e invariavelmente brilhante.

Dêem-lhe uma guitarra, a sério.

Texto Publicado em www.ruadebaixo.com

sábado, 14 de maio de 2011

[Reportagem] Ursula Rucker - 5 de Maio - Musicbox


Numa altura em que já se aquece/poupa para os grandes festivais de Verão – os cartazes estão praticamente fechados -, concertos como o de Ursula Rucker no Musicbox, no passado dia 5 de Maio, poderiam ressentir-se do grande investimento que o Verão exige a qualquer melómano que se preze. Não terá acontecido com Rucker que tinha à sua espera mais de meio Musicbox, para a receber, mais uma vez, de braços bem abertos.

Ursula Rucker faz parte de um restrito conjunto de músicos em que acreditamos quando nos dizem algo como “Esta é a minha casa. Não moro aqui, mas é como se morasse. Vocês são fantásticos”. Acreditamos porque existe uma genuína ligação entre a norte-americana e o público português – um dos primeiros a dar-lhe voz, literalmente. No ano passado vimo-la, sozinha, despida, num concerto que intitulámos “O Nu de Ursula Rucker”. Desta feita, Rucker veio vestida. Deixou a nudez para debate aceso noutras paragens (muçulmanas) e fez-se acompanhar de uma banda – baterista e guitarrista.

A entrada é gradual, primeiro o baterista, depois o guitarrista e, por fim, Ursula Rucker, toda ela estilo – chapéu, óculos escuros e roupa veraneante. Logo à primeira canção revela-se mais segura relativamente à anterior passagem nesta sala. “iphone, ipad, itunes, i am… here”, atira, sublinhando, mais uma vez, a sua posição relativamente ao tema “Internet versus Realidade”. Mas Ursula já vai revelando alguma abertura relativamente à Internet e às novas tecnologias. Em 2010 revelava não ter paciência para o Twitter. Em 2011 já tem página no Facebook e pergunta “onde está Maria?”, fruto de comunicação cibernética.

“She Said”, o novo disco, é o motivo principal deste espectáculo. A base é o spoken-word, mas o concerto é mais cantado do que falado. Trip-hop, reggae (spoken-reggae?), soul, blues, country, alguns apontamentos africanos - a América sulista, a Jamaica, Bristol e África, tudo parece caber no caldeirão da alemã.

Nos momentos memoráveis do concerto registámos uma canção que, no momento em que Ursula profere a frase mais lembrada do reggae, “one love!”, vemos vários casais abraçados. Mais: o registo acapella no final dessa mesma canção e «Fuck You», canção enorme em que um grande riff é acompanhado por “na na na’s” e por “fucks, muitos fucks”.

Mas Ursula Rucker não é apenas a (óptima) música que produz. Rucker conhece o poder das palavras e usa-as com mestria, dentro e fora das canções. “Por vezes questiono-me porque é que dou tanto numa canção. Só me apetece chorar!”, diz, a certa altura, emocionada. Numa outra situação, apresenta um poema escrito depois da catástrofe provocada pelo Furacão Katrina e o governo norte-americano. “Mesmo para as pessoas que achavam que o governo já estava todo “fodido”, foi um choque ver como esse mesmo governo deixou todas aquelas pessoas morrer”. Outra ainda: “Dizem que sou assustadora, não sou. Dizem que não sei escrever uma canção de amor. Pois aqui está uma canção de amor”. Todas estas tiradas, tão boas quanto sinceras, ajudam-nos a definir Ursula Rucker. Há mesmo algo de revolucionário em tudo isto quando a artista ergue o punho e repete “resist!”. E tudo isto é simbólico, numa altura em que os Homens da Luta estão na Alemanha a espalhar a sua mensagem de alegria, mas também de preocupação e Ursula Rucker vem da Alemanha, toda ela sorrisos, simpatia e alegria, espalhar a sua mensagem de luta neste Portugal que espera pelo bicho papão que é o FMI.

Em encore, “que seria feito de qualquer maneira”, somos presenteados com um mini instrumental com slide ao qual se segue «Supa Sista», o mais conhecido e celebrado tema de Rucker. O espectáculo acaba com o baterista a acelerar e o guitarrista a acompanhar num solo final. Quase perfeito.

sábado, 30 de abril de 2011

[Reportagem] Tim Hecker - 29 de Abril - Galeria Zé dos Bois

Ao entrarmos na Galeria Zé dos Bois (ZdB), apenas cinco minutos após a hora marcada para o início do concerto – números quase insignificantes quando se trata de um concerto na ZdB -, deparamo-nos com um rapaz e uma rapariga que se queixam do facto do concerto “ter começado a horas”, quando “o costume é atrasar sempre”. Preso por ter cão e preso por não ter…

Tim Hecker, é ele o responsável por este espectáculo que nos chega a horas, vem de Montreal, Canadá, sendo dono de uma prolífica carreira que conta já com seis álbuns e inúmeros EPs, desde 2001, ano em que se estreou. A música passeia-se pela ambient, mas também toca o noise e o shoegaze – algumas camadas de som parecem indiciar a samplagem de guitarras em grande distorção.

Sem luz – uma dificuldade para quem escreve, uma impossibilidade para quem fotografa -, o espectáculo (?) destina-se a criar ambientes e paisagens, faz um apelo à mente, incita à viagem mental. A música reflecte o que passava lá fora – uma verdadeira tempestade tropical -, ora há granizo a potes, ora vem um raio de sol, ora troveja violentamente, ora…. Na música, na ZdB, também era assim: ora caem camadas de drone, ora surge uma acalmia efémera, ora vêm reverberações shoegaze, ora...

O final também surge mais rápido que o habitual. Soam palmas e Hecker apressa-se a sair das imediações de toda a sua parafernália electrónica. “Já?”, ouvimos.

Texto originalmente publicado em: http://www.ruadebaixo.com

quarta-feira, 13 de abril de 2011

[Reportagem] Asian Dub Foundation - 29 de Março - Santiago Alquimista


Os Asian Dub Foundation são uma daquelas bandas dos anos 90 que quando confirma um concerto em Portugal, muitos de nós questionamos: “Estes tipos ainda existem?”. Sim, existem e ao que parece o último disco data de 2008 – alguém se apercebeu? – e o próximo é editado no decorrer de 2011.

Santiago Alquimista, 28 de Março, sala a meio gás, mas público bastante entusiasta. Entram o tipo que controla toda a maquinaria e o percussionista, Prithpal Rajput, mas a plateia só percebe que o concerto está a começar, quando soam os primeiros sons samplados. Entra a guitarra, ouvem-se sons tribais, entra o baixo, ouvem-se guitarras wah-wah e nesta fase o homem da electrónica é o mestre-de-cerimónias. Por fim, entram em cena os dois vocalistas da banda, um de pronúncia jamaicana, o outro de ascendência oriental.

A sonoridade é um verdadeiro melting-pot em que o rock, hip hop, drum n’ bass, reggae, reggaeton e electrónica dão as mãos. A banda chama o público para “sentir a energia” e fazem-se valer disso para oferecer uma actuação triunfante. Ao nosso lado ouvimos falar de Need For Speed ou Fifa 2004 – convém referir que os grandes êxitos dos Asian Dub Foundation pertenceram a bandas sonoras de clássicos dos videojogos.

No Alquimista vimos de tudo: foliões, metaleiros, desajeitados, hipsters com a barba por fazer – todos eles, quando a banda dedica uma canção aos tunisinos, aos líbios e… aos portugueses, reagem como se estivessem todos no mesmo barco, de forma efusiva.

Problemas: Um: pareceu-nos, durante quase hora e meia, que estávamos a ouvir sempre a mesma canção; Dois: os Asian Dub Foundation poderiam fugir ao cliché que é o uso de palavras como “Revolution”, “Power” e “Light” - ideias fortes, mas que se perdem neste tipo de manifestação vazia em que o álcool fala mais alto que o coração, tornando-as inúteis; Três: afinal de contas, isto já não soa – se é que alguma soou – refrescante. Isso percebe-se nas canções mais celebradas, como, por exemplo, «Flyover», que é um hit de péssimo gosto e puramente adolescente que se destina a estimular hormonas.

Nada a apontar ao espectáculo que foi, afinal de contas, triunfante. Mas, no fundo, os Asian Dub Foundation fazem lembrar os carros do Need For Speed. Óptimos para acelerar um à noite, demasiado berrantes para passear durante o dia.

Uma última nota às garrafas de vidro de cerveja que vimos passear pela sala. Já vimos as coisas correrem mal, por muito menos.


Fotografia: José Eduardo Real

quarta-feira, 6 de abril de 2011

[Reportagem] B Fachada - 3 de Abril - Teatro Maria Matos




Deixemo-nos de tretas, B Fachada é o mais importante novo músico nacional dos últimos dez anos. Sem merdas: é capaz de dividir um mundo em dois, de um lado os detractores que odeiam mais o Bernardo Fachada do que a música do artista, B Fachada, do outro os apreciadores, público informado que ouviu mais do que o ep de estreia do mais importante novo músico nacional dos últimos dez anos. Nós, já devem ter reparado, encontramo-nos no grupo dos apreciadores. Até porque se colocássemos de parte um artista apenas porque é mal criado, feio ou porque tem os dentes podres e as unhas pintadas, nunca ligaríamos peva a Lou Reed ou a Tom Waits.

Primeiro foi Viola Braguesa, ep que só não passou ao lado dos mais atentos. Seguiu-se Um fim-de-semana no Pónei Dourado, o disco que divide. Por um lado os que dizem que “Zé” é “a única canção gira” (vamos lá, a sério?), do outro os que assumem que “Beijinhos” e “O Ciúme e a Vergonha” é que são as verdadeiras pérolas. Depois veio O Disco, que é nome, mas também é isso mesmo, “O disco” de B Fachada, a obra-prima. Este álbum, o segundo de B Fachada, não foi ouvido pelos detractores, os tais que acham que o “Zé” é que é. Com Há Festa na Moradia, Fachada regressou a um estética mais lo-fi – e aqui admite-se que afaste alguns. Com É p’ra meninos, disco simpático de canções infantis, B Fachada converte mais uns quantos à sua causa. Parece ser o disco que divide aquilo que já está dividido. Divide os detractores – de um lado os detractores que continuam a ser detractores, do outros os detractores que passam a ser apreciadores. Uma valente confusão. Chegamos assim ao Teatro Maria Matos.

Bernardo está cansado depois da sessão das quatro da tarde - as crianças, claro. A sessão da noite, para graúdos, é portanto a feijões. O concerto começa com canções dos discos anteriores como “Só te Falta Seres Mulher” (grande, grande canção), mas rapidamente se centra em É p’ra Meninos. “Barrigão”, com Lula Pena, é a primeira e, acreditem, não é só p’ra meninos, é p’ra toda a gente menos para aqueles que têm o coração sensível. Assombrosa. Também ouvimos as óptimas “Tó Zé”, “Dia de Natal” e “Conselhos de Avô”, mas é com “Estar à espera ou procurar”, do disco homónimo que o público volta a reagir de forma mais efusiva, mostrando que o novo álbum ainda não está bem assimilado. Ninguém se queixa, mas o músico faz questão de alertar: “Eu sei que podemos parecer amadores, mas não é isso. É apenas sem truques e sem magia”. A máquina ainda não funciona em pleno e o artista assume-o sem pudores – não é a isto que chamamos de modéstia?

Tal como B Fachada este texto e o seu escriba são capazes de dividir, ser aplaudidos e atacados. Sem problema – se conseguirmos que, pelo menos, um detractor se ponha a ouvir “O disco” com alguma dedicação, esmiúce a coisa e depois, aí sim, decida se isto é bom ou mau, o texto já valeu a pena. Dos detractores que conhecemos, só ouvimos argumentos como “B Fachada é um pseudo-intelectual com a mania”, ou que “é uma Fachada” – esta última é claramente uma piada fácil com que Bernardo já deveria estar a contar quando iniciou o projecto. Os argumentos não apontam para a música, apontam para a pessoa, a pessoa que incomoda e incomoda porque destoa. Afinal de contas, é tão cool gostar de Fachada como não é não gostar.

Publicado em www.ruadebaixo.com

terça-feira, 29 de março de 2011

[Reportagem] Glockenwise + Pega Monstro - 25 de Março - Musicbox


Não estava no programa, mas vimos subir ao palco duas meninas que juntas formam um duo chamado Pega Monstro - os anos 90, outra vez - e que à imagem das Bellenden Ker que vimos no Offbeatz há alguma semanas, vão beber directamente ao movimento riot-grrrl dos finais dos anos 80 e início dos anos 90. Muito pouca coisa faz sentido nestas Pega Monstro. Nada contra o facto de não saberem mais do que três acordes - alguma da mais entusiasmante música do final da década de 70 (e não só) fundou bases nessa premissa. O que não faz sentido é que as Pega Monstro peguem nos ideais punk para criar uma outra coisa, uma coisa forçada, incoerente e, a certa altura, insuportável. Desabafos como "Estou bueda nervosa, estou a tremer" retiram qualquer tipo de credibilidade a um projecto puramente lúdico e nomes de canções como "Macaco" em que uma frase se repete várias vezes até ao fim, soam forçadas. Por fim, qual é o propósito de um grito digno de um filme de terror que sai da boca da vocalista já no final da actuação? O bom não pode ser mau, mas o mau pode ser bom. Não é o caso.

Com os Glockenwise a conversa é bem diferente. Vêm de Barcelos - cidade que já não é só o galo - e trazem um rock garageiro, com canções sobre miúdas e outras coisas. Na bagagem têm um muito recomendável ep que apresentaram na integra, no Musicbox. Muito suor, muita energia, muito e bom rock n' roll. À medida que a actuação avança, mais certezas temos de que estamos a assistir a um concerto histórico - não interessa se estão 40 pessoas no Musicbox, até porque como disse Tony Wilson em 24 Hour Party People, quanto menos público, mais história se faz, ainda para mais quando nesse público estão Nick Nicotine e Luís Gravito (Cão de Morte).

Houve mosh, crowd-surf e guitarras desafinadas: "perdi o transformador", diz o vocalista Nuno - não levamos a mal, faz parte e tempera o ambiente - aprendam Pega Monstro. Quase no fim, flusa, o baixista, que enverga uma t-shirt do Milhões de Festa, acaba a esfregar as mãos nas calçãs tão suado que estava. Acabaram à Beatles de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, a gritar "goodbye". A pequena plateia pedia mais. A resposta: "Não temos mais canções... só se repetirmos uma. Vamos repetir uma". Assim foi. Uma festa.

A foto não pertence ao concerto em questão

quinta-feira, 24 de março de 2011

[Reportagem] Cut Copy - 23 de Março - Coliseu dos Recreios

Tarefa difícil a de MAD.MAC – fazer no início aquilo que costuma acontecer no fim –, abrir para os Cut Copy com um DJ Set. Inteligente a forma como fez o rock independente dar o braço à electrónica mais hormonal. Ouvimos, por exemplo, os óptimos Franz Ferdinand e os menos bons Gossip algures no meio. Quando MAD.MAC terminou o set já se davam os últimos retoques nos instrumentos da grande atracção da noite.

Não foi necessário um grande intervalo de espera – uns incomuns 15 minutos, mais coisa menos coisa - para assistir à entrada em palco dos australianos Cut Copy. Eles que vêm do mesmo país que os AC/DC, Howling Bells, Wolfmother e Nick Cave, mas que são uma outra coisa. Eles que ao segundo disco, In Ghost Colours, já de 2008, representavam uma lufada de ar fresco quando cruzavam o rock e a electrónica de forma eficaz. Eles, os Cut Copy, tinham-se tornado naquilo que os Hot Chip sempre aspiraram e naquilo que os Killers gostariam de se ter tornado.

Vamos ao concerto – sala bem composta, plateia entusiasmada e com vontade de fazer aquilo que realmente importa num concerto dos Cut Copy (dançar) e uma banda determinada em participar na festa (dançar e fazer dançar). As guitarras ora são destorcidas, ora são gingonas, o baixo aponta directamente para a anca e as batidas são secas à New Order (a grande influência dos australianos). Mas isto não resultaria se não tivéssemos canções, canções como a extraordinária “Lights and Music” e o seu inesquecível baixo ou o excelente primeiro single do novo disco (Zonoscope), “Need You Now” que, claro, transpira New order por todos os poros. Mas o momento da noite estava guardado para a altura em que Dan Whitford, o vocalista, pergunta à plateia se esta estaria pronta para saltar e dançar. Ao sinal afirmativo do público, a electrónica que, até aí, tinha sido atinada e bem comportada, torna-se pesada e indisciplinada. Nada contra. Olhamos para o palco e somos ofuscados pela quantidade de luz que vem do mesmo, mas conseguimos perceber que Whitford está aos saltos, Tim Hoey a cuspir a água que acabou de meter levar à boca e, ao nosso lado, o público está todo aos saltos. Cai, por fim, “Hearts on Fire” e, claro, temos direito a novo momento de loucura generalizada, um dos últimos da noite.

Quem lá esteve diz que no Lux, há dois anos, é que foi. Nós não estivemos no Lux, mas, a avaliar pelo que vimos ontem, a noite em Santa Apolónia deve ter sido histórica.

A foto não pertence ao concerto em questão.

domingo, 13 de março de 2011

[Reportagem] Gogol Bordello - 6 de Março - Campo Pequeno


Quando chegamos à Praça de Touros do Campo Pequeno, a festa já é rija – os Che Sudaka, a banda responsável pela primeira parte de mais uma visita dos Gogol Bordello a solo nacional – é já a sexta -, tem os ingredientes certos para animar esta plateia. Influências latinas – Argentina e Colômbia são os países de origem dos membros da banda que reside em Espanha -, reggae e punk numa amálgama que se torna por vezes dançável e perfeita para uma plateia que precisa de aquecer.

Quando os Che Sudaka saem de palco sentamo-nos ao lado de um casal que junto faz, com toda a certeza, mais de um século de vida. As habituais cervejarias ambulantes passam a toda a hora – entre outros comércios como o das queijadas e o dos gelados - e um dos vendedores pára para servir o referido casal, mas a imperial sai mal tirada, com espuma a mais. Não há que ter vergonha - até porque, relativamente à idade, temos Sergey Ryabtsev em palco, o violinista dos Gogol Bordello que dá o exemplo. Quanto à cerveja, atente-se a toda a banda – as notas ao lado, a pronúncia terrível de Eugene Hutz e as canções que só sobrevivem ao vivo. Neste caso não importa se a cerveja foi mal tirada – importa sim, o facto de estar ali, disponível, pronta a ser tomada com calma ou entusiasmo.

Longe vão os tempos em que a banda de Eugene Hutz se apresentou em Paredes de Coura num concerto louco, mítico e para sempre lembrar. Em Portugal, as salas continuam cheias para os receber – esta foi a segunda vez em nome próprio, no Campo Pequeno -, mas a coisa vai esmorecendo com o passar do tempo. Já não sentimos aquela sensação de que tudo pode acontecer, porque já vimos tudo isto ao vivo, várias vezes. Em nome próprio e em festivais, vários. Impressiona, isso sim, a forma como estes miúdos enchem as salas de espectáculo, dia sim, dia não. Tudo por um bom momento, um escape à rotina diária em que são lançados, um futuro sem perspectivas, o caos de um mundo que os leva a reverem-se nos Gogol Bordello. Eles sabem que estes tipos não são a melhor coisa do mundo todos os dias, mas são-no naquele momento em que entram em palco e lançam temas imediatamente reconhecíveis como «Ultimate», «Wonderlust King» ou «Start Wearing Purple».

Existem bandas para as quais o verdadeiro teste é o espectáculo ao vivo. Com os Gogol Bordello, as coisas ficam de pernas para o ar, o teste é em estúdio e fora dele são favas contadas. Aliás, na última década, afamaram-se estas trupes capazes de criar momentos incríveis em palco. Se os Arcade Fire vão direitos ao nosso coração, os Gogol Bordello são saltimbancos, tipos de ar cool, cada um mais carismático que o outro e alegres foliões que contagiam plateias por esse mundo fora.

Mas importa trazer de novo à tona o factor “novidade”. E Eugene Hutz e companhia bem tentam variar o espectáculo: Pedro Erazo (infelizmente) ganhou protagonismo na banda – acaba por ser uma dispensável extensão de Eugene, mas sem carisma -, a adição de alguns elementos electrónicos e algumas palavras ditas em português (?) - coisas não muito didácticas, talvez ensinadas pelos Che Sudaka, como “Puta qui pariu”, “Trazemos música fodido bebedo style” e “caralho”). Para o fã isto será mais que suficiente, para o ouvinte casual, que já viu os Gogol Bordello uma infinidade de vezes, isto fica um pouco aquém.

No início do encore, com o regresso da banda ao palco, parecia que tinha tudo começado outra vez – mosh, crowdsurf, perucas de Carnaval aos saltos – e, no fim, os membros dos Che Sudaka juntam-se à banda, ou seja, ficam 13 indivíduos em palco - sem azares. A fórmula começa a cansar, é verdade, mas, ainda assim, os Gogol Bordello continuam a ser uma das bandas mais entusiasmantes do mundo, ao vivo, e foram, sem dúvida, a mais convincente proposta para este Carnaval. Tivesse sido a primeira vez e teria sido fantástico.

Fotografia de José Eduardo Real

Texto originalmente publicado na Revista Online Rua de Baixo.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

[Reportagem] Band of Horses - 7 de Fevereiro - Aula Magna


Foram cinco anos de suores frios, cinco anos ansiedade e de espera transformados em expectativas que estavam lá no alto desde que o anúncio do primeiro concerto dos Band of Horses em Portugal foi feito, no último trimestre de 2010. É por isso - não só, mas também - que o concerto - que ainda para mais aconteceu no sitio certo, a Aula Magna -, desiludiu. Não chegou a explodir - ameaçou quando "Funeral" levantou a sala, mas não cumpriu a ameaça. Para isso o contribuiu um alinhamento - arrancou com canções menos mediáticas, adormecendo desta forma uma plateia cheia de vontade de se juntar à banda em hinos épicos como "Ode to LRC" ou "Is there a ghost", um público ávido por cantar em uníssono "No One's Gonna Love You". Foram cinco anos de espera porra! Era suposto ser especial e não foi.

Lá para o meio oferecem o primeiro single do último Infinite Arms, óptimo disco, óptima canção, cheia de belas harmonias e que nos chega a fazer lembrar os Black Keys do último Brothers. Lá atrás no projector eramos presenteados com paisagens naturais, rurais e pastorais como esta folk com ares de blues e quer busca inspiração nas raízes. Projectam uma imagem do Terreiro do Paço, uma surpresa a que o público responde de forma positiva. Uma surpresa tal como na entrada em palco, ao som de "Evening Kitchen", etéria, pura, apenas com Ben Bridwell e Bill Reynolds em palco.

É claro que "Funeral", "Ode to LCR", "Is there a ghost" e "No One's gonna love you" foram momentos de grande celebração. Mas não apagaram o que de banal e sem chama já tinha ficado para trás. Para os que só agora descobriram ou estão a descobrir terá sido um momento bem passado, para quem ficou cinco anos à espera disto, da estreia dos Band of Horses em Portugal, foi uma profunda desilusão. O problema é difícil de apontar. Banda esforçada e competente, público rendido e conhecedor, uma sala perfeita e lotada... tinha tudo para dar certo. Não deu.

Nota: Esta fotografia não corresponde ao concerto em questão.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

[Reportagem] The Young Gods - 31 de Janeiro - Santiago Alquimista


Segunda noite da mini-digressão protagonizada pelos Young Gods no nosso pequeno país. Segunda noite num Santiago Alquimista bem composto, ainda que não esgotado – como aconteceu na noite anterior. Há quem se queixe, mas a culpa não parece ser da maior banda que a Suíça alguma vez pariu - “20 euros por esta sala?”, ouvimos, ainda antes do trio - que, em palco, se transforma em quarteto durante grande parte do tempo – fazer-se ouvir através dos primeiros sons electrónicos que marcam o ritmo de «Everybody Knows», canção do homónimo último disco. Resta referir que este público, o dos suíços Young Gods, é um público adulto que conhece a história do rock industrial de uma ponta à outra, dos Throbbing Gristle aos Nine Inch Nails.

À segunda canção da noite a percussão endurece e os sons electrónicos escurecem. À terceira entra a guitarra eléctrica e o ritmo é mais vivo e dançável – há pandeireta e solo de guitarra. Logo depois já nos esquecemos do local onde nos tínhamos encontro marcado com estes suíços. Somos teletransportados para cenários do livro da Bíblia de São João, incineradoras localizadas em cenários desoladores e locais em que sons maquinais (de locomotivas movidas a droga e não a carvão) como os que ouvimos fazem sentido.

Pausa em «Mister Sunshine» para trocar a garrafa de oxigénio – o ar aqui é irrespirável – com falsete de Franz Treichler. Depois volta à carga – Treichler pega no microfone e aponta a luz para o público enquanto grita sucessivamente “And the winner is…” e transforma este num dos momentos mais intensos do concerto. Não obtemos resposta, mas ainda assim o público responde – os corpos balançam e dançam sincronizadamente. Perto do encore assistimos a cargas de distorção e feedback entre outros sons psicadélicos. E já que mencionamos algum psicadelismo, há nesta altura meia dúzia de elementos na plateia mais preocupados em dar umas boas gargalhadas na sequência de frases como “Os Rolling Stones não cabiam aqui dentro”, como se tivesse descoberto a teoria da relatividade.

Os 25 anos de carreira fazem-se sentir a um nível meramente físico: vislumbramos cabelos brancos e as inevitáveis rugas. Em todo o resto continuam os mesmos de sempre – quase duas horas entre o pós-industrial mais violento e momentos mais introspectivos e até acústicos com pinceladas psicadélicas aqui e ali. O jogo de luzes é importante, tudo conta para tornar o ambiente mais soturno, há que dar uma credibilidade visual àquilo que os ouvidos assimilam. Há algo de apocalíptico em tudo isto, as palavras de ordem parecem-nos carregadas de raiva, experimentamos ambientes tensos, estranhos e desconfortáveis. Subimos e descemos de intensidade, qual elevador emocional que tanto nos entusiasma como nos conforta.

No encore, temos direito a todas a canções que queríamos ouvir: «Gasoline Man», «Skinflowers» e «Kissing the Sun» à cabeça – esta última, a ter direito à maior ovação da noite e a um pequeno mosh. Pensávamos nós que este seria o fim, apoteótico como mandam as regras. Mas não, a banda anuncia que, a fim de evitar uma saída de palco para segundo encore, prefere dar já a última canção da noite que acaba por ser três.

Imediatamente antes do final, um indivíduo fixa o olhar na planta de emergência – acto inteligente, porque isto num concerto dos Young Gods nunca se sabe se e quando é que o recinto vai arder.

Texto originalmente publicado em www.ruadebaixo.com

Fotografia: José Eduardo Real

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

[Reportagem] MGMT - 18 de Novembro - Campo Pequeno

Casa cheia - ou perto de - no Campo Pequeno para aquele que foi o último grande concerto de 2010 no passado dia 18 de Dezembro. Antes do concerto, vimos um ou outro fã vestido a rigor e alguns estrangeiros para o também último concerto desta digressão dos MGMT. Vem aí o Natal e há que viajar para perto da família.

A história dos MGMT já foi contada centenas de vezes. Vamos resumir: Um disco, duas canções capazes de fazer desviar o eixo da Terra (qual terramoto no Chile!) e uma viagem à Transilvânia depois, o duo composto por Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser decide dar um passo atrás, que afinal são dois em frente - como corpo inteiro, “Congratulations” é claramente superior a “Oracular Spectacular” e - mais importante - mantém o factor surpresa. Porque ninguém estava à espera disto. O suicídio comercial, a ausência de refrães e a dificuldade em transpor o álbum para um palco acabam por se revelar apostas ganhas – “Congratulations” figura, com todo o mérito, em grande parte das listas de balanço anual.

Para os que receavam uma sabotagem a “Oracular Spectacular”, os MGMT acalmam as hostes com «Youth». Segue-se «Time to Pretend» e aquela linha de teclados imortal mais aquela letra intemporal – sem dúvida, uma das melhores canções da década dos zeros. Chega, por fim, uma canção do álbum deste ano, «Song for Dan Treacy» e as suas teclas fantasmagóricas - os Beach Boys como referência - e a repetição - coisa rara neste disco - da frase “He Made is Mind Up”. Ouvimos a óptima «Weekend Wars» e a perfeita «I Found a Whistle». Olhamos para as imagens psicadélicas no pano de fundo branco e ouvimos, apropriadamente, os primeiros acordes de «Flash Delirium». “Electric Feel” mostra de uma vez por todas que não, os MGMT não decidiram dar nova roupagem, ao vivo, às canções de “Oracular Spectacular”. Em «It’s Working» lembramo-nos dos The Mamas & Papas e, depois, temos um ou outro momento mais Floydiano.

E eis que pouco antes da primeira saída de palco surge a canção mais esperada da noite, «Kids», e uma reacção eufórica - explosão de gritos, assobios, saltos na plateia, uma bancada em pé, telemóveis ao alto, mais do que uma canção que se tornou maior que a própria banda, um hino, um hino que toda a gente conhece. Em palco, toda a banda deixa os instrumentos e junta-se à celebração - há apenas lugar a um orgiástico solo de guitarra. Fim de festa para os fãs do primeiro disco.

Mas os MGMT não quebram no ritmo e oferecem «Brian Eno» - vimos algum público a abandonar a sala depois de «Kids» - e apresentam aquela que é, segundo Andrew VanWyngarden, a última canção da noite, o que não é mais do que VanWyngarden a troçar - a coisa não dura mais que cinco segundos.

Para o encore, o público chamou a banda entoando a melodia de «Kids». VanWyngarden elogia os dotes vocais do público português, anuncia uma última canção e defrauda as expectativas dos presentes: canção longa, de vários minutos, cheia de referências psicadélicas, guitarras wah wah e afins. Acabam com a belíssima «Congratulations». Fim de festa.

Na primeira parte, os Smith Westerns mostraram alguns bons riffs, mas não convenceram em palco como parecem convencer em disco. O próprio single, «Weekend», é uma grande canção de estúdio que acaba por não soar tão bem ao vivo. Recebidos de forma fria, só pararam para dizer algo como “Ok, Obrigado. Aqui vem outra canção”, o que mostra ainda pouca rodagem e falta de à-vontade em tocar ao vivo. Na última canção vemos o guitarrista de aspecto hippie dos MGMT juntar-se em palco - não se acrescentou grande coisa, mas prova que pelo menos, os Smith Westerns vão fazendo bons amigos.

Reportagem original publicada aqui.

Fotografia por Ruben Viegas