quarta-feira, 11 de agosto de 2010

[Reportagem] 16º Super Bock Super Rock

Com três palcos a servirem um recinto de médias dimensões, o Festival Super Bock Super Rock juntou alguma da melhor colheita “indie” dos últimos tempos a alguns nomes da soul – nova e “velha” – num cartaz impressionante.

Dia 16:

No primeiro dia subiram ao palco os dois grandes OVNIS do festival: Keane e Pet Shop Boys. Relativamente aos Keane nada a apontar: não vimos o concerto. Dos Pet Shop Boys sobressaiu um espectáculo cheio de artifícios, uma incrível falta de dinâmica e um desfilar de canções tal e qual como estas aparecem em disco. Os Pet Shop Boys não arriscaram o que quer que fosse. Os Pet Shop Boys já não arriscam nada. Os Pet Shop Boys ultrapassaram o prazo de validade. Nunca foram grande coisa, hoje são penosos. Antes, Jamie Lidell tinha inaugurado o palco em grande forma. Com “Compass”, o sucessor do muito bem sucedido “Multiply”, na bagagem, Lidell voltou a mostrar que, embora o novo disco não gere consensos, em palco continua a ser memorável . Das bandas pre-load assistimos a algumas partes dos concertos, mas nenhuma das três se destacou. St. Vincent subiu ao Palco EDP à hora do por do sol. Fez todo o sentido – esta música é uma óptima banda sonora para se ouvir deitado na relva com o sol a esconder-se no horizonte. A rapariga pode ser muito talentosa – assim pareceu, de facto -, mas não está talhada para este tipo de palco. Aos Beach House pertenceu o concerto da noite. Este foi o primeiro concerto do duo ao ar livre e o espectáculo parece só ter a ganhar com isso. Canções como “Gila”, “Zebra”, “Silver Soul” ou “Walk In the Park” ganham uma dimensão ainda maior. Tudo muito bonitinho, tudo perfeito. Não conseguimos ver a actuação dos Temper Trap nem a de Mayer Hawthorne. Dos Cut Copy vimos meia-dúzia de minutos – pareceu-nos que a banda australiana estava a cumprir a principal missão a que se propõe: fazer dançar os milhares de presentes ao som das canções do bem sucedido, mas nem por isso entusiasmante “In Ghost Colours”. A fechar o palco EDP estiveram os Grizzly Bear. Já os vimos fazer melhor no Coliseu dos Recreios. Nem a participação de Victoria Legrand, dos Beach House, conseguiu elevar a fasquia para outros níveis. Foi um mau concerto? Não, mas continua a faltar qualquer coisa aos Grizzly Bear para se tornarem gigantes ao vivo. Continuamos sem perceber o que é – e, pelos vistos, a banda também.

Dia 17:

A abrir o Palco Super Bock, no segundo dia, esteve Tiago Bettencourt. Erro de casting. O ex-líder dos Toranja devia estar no EDP. As desmedidas dimensões do Palco Super Bock retiraram qualquer hipótese das canções de Bettencourt brilharem. Não é que o músico seja de excepção, mas fica a ideia que, noutras condições o concerto não teria sido uma seca tremenda. Desistimos à quarta canção. Seguiu-se Julian Casablancas, um dos mais esperados da noite. O líder dos Strokes não estaria nas melhores condições, mas mesmo assim subiu ao palco. Apresentou várias canções do novo disco, cantou “Hard to Explain” e “Automatic Stop” e, ao fim de 45 minutos, saiu do palco com um seco “Obrigado” para não mais voltar. Amuo ou indisposição? Continuamos a não saber responder. Depois os Hot Chip. A electrónica que também é rock e que, no fundo, é indie, contagiou uma assistência que só precisava de um pretexto para saltar e dançar como se os Hot Chip fossem a “next big thing” da música de dança. Não são, nem sequer andam lá perto, mas a continuarem assim rapidamente vão-se tornar numa banda estádio. Entretanto, no palco secundário, já tinham actuado Holly Miranda – guitarras épicas, mais uma voz feminina a quer furar as convenções indie e uma agradável surpresa – e uma Rita Red Shoes igual a sempre: enfadonha e de gosto discutível. De Patrick Watson vimos três canções. Muitas cordas (violinos e guitarras acústicas à cabeça) e um registo tão épico quanto clássico. Não conseguimos ficar mais tempo, porque do outro lado os Vampire Weekend estavam prestes a entrar em palco, mas o que vimos prometia um concerto memorável, principalmente para os mais aficionados. Os Vampire Weekend deram o concerto da noite. Não! Os Vampire Weekend deram o concerto do festival, pelo menos até ao final do segundo dia – um pequeno génio de Minneapolis trocou-lhes as voltas. Começaram com artilharia pesada: “Holiday” tem potencial para se tornar num hino de Verão tardio, desfilaram êxitos com a energia juvenil que os caracteriza. O novo “Contra” pode não ser tão bom quanto a aclamada estreia, mas é um belo álbum pop com influências africanas. Lembramo-nos de Paul Simon, mas também lembramo-nos de Ali Farka Touré que africanizou as influências ocidentais. Os Vampire Weekend fazem o contrario, ocidentalizam as influências africanas. O resultado é quase perfeito. Fazem todo o sentido aqui e agora: hoje. Dos Leftfield vimos meia-dúzia de minutos e não conseguimos perceber porque é que um dia isto chegou a ser alvo de algum culto.

Dia 18:

Ao terceiro dia, o Super Bock Super Rock encheu-se de gente de todas as idades para o “Artista” mais aguardado do evento: Prince. O dia começou cedo com os Palma’s Gang. Acompanhado de, entre outros, Zé Pedro dos Xutos & Pontapés, Jorge Palma fez desfilar várias canções, que, tendo em conta o actual momento da música portuguesa, soam a fora do prazo de validade. Prazo de validade é algo que os Stereophonics já ultrapassaram há muito tempo. A mediania da banda britânica nunca mais do que isso e o público só despertou quando “Dakota” e “Have a Nice Day” fecharam o concerto. Seguiram-se os Spoon e as suas canções perfeitas que vêm de discos quase perfeitos que quase ninguém tinha reparado até à aclamação critica de “Ga Ga Ga Ga Ga”, extraordinário disco de 2007. O novo “Transference” volta a manter a fasquia, ainda que não a eleve a um novo patamar e os Spoon continuam irrepreensíveis ao vivo. Coube aos National actuar antes de Prince. A banda de Matt Berllinger voltou a fabricar uma obra-prima- “High Violet” é isso mesmo, uma obra-prima quase tão obra-prima quanto o enorme “Boxer”. Canções como “Apartment Story”, “Fake Empire” ou “Squalior Victoria” convivem na perfeição com novos temas como “Terrible Love” “Afraid of Everyone”, “Anyone’s Ghost” ou “Bloodbuzz Ohio”. Estas e outras grandes canções transformam qualquer espectáculo dos National num momento de catarse colectiva, a que parece que vamos voltar a ter direito no início de 2011. Aguardamos ansiosamente. Antes de Prince, viajámos várias vezes até ao Palco EDP. Dos Morning Benders só ouvimos a última canção, um dos singles do ano, “Excuses”. Dos Wild Beasts vimos um pouco mais. Registo falsete, vocalista com ares de Zé Zé Camarinha e uma actuação que nos pareceu caminhar para adjectivos como “sólido” e “competente”. Infelizmente, graças aos National, não conseguimos assistir a nem um minuto de Sharon Jones & The Dap Kings. A fechar o Palco EDP, os John Butler Trio levaram a sua legião de fieis com eles e não desiludiram – pelo menos nas primeiras cinco/seis canções. Entretanto o Rei – qual Prince! – subiu ao Palco Super Bock para uma actuação histórica. Soul, mas mesmo muita soul, conduzida pelos dotes de guitarra inequívocos do grande “Artista” – qual João Vieira Pinto! Quando saiu para encore, tínhamos quase uma hora de actuação em cima, já sabíamos que Prince voltaria acompanhado. Voltou com Ana Moura e, sim, subjugou-se à portuguesa, acompanhando-a em dois fados conduzidos pela voz da fadista e pela guitarra eléctrica – sim, eléctrica - de Prince. Mas havia mais. Haviam que puxar pela garganta do povo. Não faltaram, claro, êxitos como “Kiss” e “Purple Rain” – muito longa, mas nem por isso enfadonha. Acabou por deixar o palco, que entretanto se tinha tornado numa grande pista de dança, com “Dance (Disco Heat)” de Sylvester. Memorável. Pouco memorável foi o concerto dos Empire of the Sun. Relatos de Inglaterra diziam-nos que o projecto de Luke Steele tinha falhado na sua missão de colocar as dezenas de milhar de pessoas a dançar no Glastonbury. Em Portugal terá sido melhor. De facto, muita gente se deixou contagiar pelas medíocres canções do álbum de estreia, mas exige-se mais quando o que está em causa é o fecho de um festival. E esse deveria ter sido em beleza. Com Prince, por exemplo.

Nota: A foto não pertence ao evento em questão

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Festival Sudoeste: Flaming Lips, M.I.A., Friendly Fires, DJ Shadow e Mike Patton vêm aí

O cartaz está longe de ser consensual, mas nem por isso a 14ª edição do Festival Sudoeste deixa de ser a mais interessante dos últimos cinco anos - já lá vai longe a saudosa edição de 2005 que trouxe Kasabian, Oasis, LCD Soundsystem, The Kills, Dinosaur Jr, Doves, Thrills entre muitos outros projectos com algum ou pouco interesse. Há coisas muito desinteressantes no cartaz 2010: Sugababes, David Guetta, James Morrison e Colbie Caillat... haja paciência para tanta coisa chata. Mas há um outro (e muito interessante) lado: Friendly Fires, Mike Patton, Flaming Lips, M.I.A., DJ Shadow e uma bela representação portuguesa liderada pelos excelentes Orelha Negra e Diabo na Cruz. Vamos ao que interessa. Logo no primeiro dia a sério, o 5 de Agosto, dois cabeças de cartaz de luxo: M.I.A. e Flaming Lips. A primeira traz o seu caldeirão de estilos, em que se incluem baile funk, hip hop, kuduro e tudo o mais que quiserem lá meter - ela não se importa - que a tornam um dos maiores ícones do nosso tempo. O novo álbum, MAYA, não é consensual, mas há um passado a celebrar - dois discos quase perfeitos que deverão ser revistos numa actuação que se espera intensa. Já os Flaming Lips são mais que uma certeza. São uma das melhores máquinas de palco da actualidade - os relatos e vídeos desta digressão mostram-nos uma festa feita de serpentinas e bolas gigantes, para além de grandes clássicos e alguns novos temas da banda - nos quais se destaca o fenomenal "Sparrow Looks Up the Machine". O momento áureo de DJ Shadow já lá vai - algures em 1996, aquando da edição do clássico Entroducing..., mas o novo espectáculo - o youtube documenta-os, mais uma vez - e o seu legado são razões mais que suficientes para uma romaria à Zambujeira do Mar. Mike Patton é Mike Patton e só esse facto já pode ser considerado valor acrescentado. O espectáculo que trás ao Sudoeste 2010 é bem diferente daquele que trouxe em 2009, com os Faith No More. Agora Patton anda armado em tenor italiano e, neste concerto, faz-se acompanhar de 12 membros da Orquestra do Algarve - vai-se lá perceber porquê. Para o fim os Friendly Fires e o interessante homónimo álbum de estreia - disco pop, com alguma electrónica que ao vivo é coisa para resultar - pena ser, a par de The Very Best, Beirut e Lykke Li, a única boa nova deste cartaz. Um cartaz que conta, isso sim, com óptimas boas novas nacionais - peixe:avião, Orelha Negra, Diabo na Cruz -, algumas dúvidas - João Só e os Abandonados, Expensive Soul, Tiago Bettencourt e Carminho - e infelizes certezas - Anaquim e NuSoulFamily. É o melhor cartaz desde 2005 - e superior ao Paredes de Coura 2010 e ao Marés Vivas 2010. É o melhor cartaz de 2010, no que a festivais tradicionais diz respeito - e isso, com tanta coisa chata, é preocupante.